segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Coisas de animais

A mulher pediu para o filho ir até o pasto, buscar o burrinho para levar uma carga de biscoitos de polvilho até a cidade.
O menino fez cara feia, espreguiçou-se e, após ouvir mais três vezes o pedido da mãe, levantou-se vagarosamente da rede e foi para o quintal.
Ao seu lado saiu o sempre fiel escudeiro, um cachorrinho barrigudo e de orelhas caídas, com o mesmo andar desengonçado do dono e pouco afeito também a algum tipo de trabalho (imagine-se o cão trabalhando, quando o menino tinha que ir para a cidade, comprar ou vender algo).
No caminho, as duas figuras quixotescas, foram parando em tudo que é sombra de árvore, nas moitas de gabiroba e no canto de alguma ave (tinha dezenas delas, lá).
Com aquele sol esturricando a cabeça de ambos, o pasto parecia ainda mais distante.
O rapazinho imaginava diversas coisas pelo caminho, como o dia que ele teria um grande número de empregados, que buscariam o seu belo carro, quantas vezes fosse necessário, para qualquer deslocamento. Nem que fosse do quarto até o banheiro, que ficava do lado de fora da casa.
Imaginava também o dia que não teria que trabalhar ou que não precisasse mais ir para a escola, como o Toninho da Maria Alva, que fizera dezoito anos e pode sair de casa sem prestar contas aos seus pais nem terminar a quarta série.
Eita cara de sorte, aquele!
O nosso amigo só não sabia que o Toninho tinha saído de casa para servir o Exército, em um batalhão no meio da Floresta Amazônica, a centenas de quilômetros de qualquer ponto de civilização.
Mas, mesmo assim, ele ia preguiçosamente andando pelo caminho, acompanhado do seu fiel companheiro canino.
Até que chegou no pasto.
E avistou o burrico, mascando uma moita quase seca de capim, com aquele olhar triste e entediado de qualquer animal de tração.
O garoto foi até a cerca e pegou a cangalha para colocar no lombo do muar.
Ao se aproximar, o menino percebeu que o jumentinho olhou bem nos seus olhos e, de maneira inimaginável, soltou as seguintes palavras:
- "Calma lá, moleque, você vai de novo me colocar essa porcaria aí..."
O menino parou, quase caiu para trás e coçou os dois olhos de maneira incrédula.
Mas, novamente o animal disse:
- "Isso mesmo, seu abestado, eu já estou cansado de ser usado para carregar esse monte de coisas para cima e para baixo..."
O menino não pensou duas vezes, largou a cangalha e saiu em disparada em direção à sua casa, acompanhado pelo cãozinho, na mesma velocidade.
Ao chegar em casa, a mãe pergunta ao assustado garoto, o que tinha acontecido, já que ele apresentava o rosto pálido e a boca trêmula, como se tivesse visto assombração.
O menino mesmo gaguejando explica para a mãe que o burrinho falou que não queria ser encangalhado. E isso por duas vezes!
A mãe incrédula, ameaça com uma bela surra, aquele preguiçoso e mentiroso garoto.
Até que, na hora agá, o rapaz é salvo pelo cachorrinho, que entra na frente da mulher e diz:
- "O burro falou sim, minha senhora, eu também ouvi..."

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